quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Dieta Atlântica, sabe o que é?!

Esse post consiste na transcrição de um trabalho acadêmico para a disciplina de Teoria de Cozinha e Pastelaria na Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra.

Feitas as devidas adaptações, compartilhamos com nossos leitores as nossas descobertas a respeito da dieta atlântica, típica da região que incluí Portugal e Galiza, Espanha.

Boa leitura!!!!

A dieta atlântica enquanto conceito engloba características alimentares e culturais comuns designando algo facilmente percetível e identificável. Trata-se de uma dieta que pelos seus ingredientes e métodos de confecção de iguarias representa um sinalagma entre as diferentes culturas que a adotam.
Como o próprio nome diz, a dieta atlântica é comum a todos os países que têm a costa banhada pelo Oceano Atlântico. Isso significa que está presente numa infinidade de culturas, sendo difícil, ou mesmo impossível, procurar uma uniformidade total no conceito que se quer consolidar, devendo ter-se em atenção os diversos regionalismos que influenciam a típica cozinha popular, muitas vezes fruto da abundância de alimentos de temporada.
A designação e o conceito “dieta atlântica”, é importante esclarecer, surgiram no norte de Portugal e na Galiza[1], regiões que juntas formavam a província romana Galécia. Pela sua proximidade física e similaridade cultural, nessa região é possível verificar uma dieta característica e marcante com a presença de ingredientes muito específicos e métodos de confecção tradicionais.
Contudo, expandiu-se o conceito para outros países, em especial os europeus, com costa para o Atlântico e, assim, o seu significado parece deturpar-se. Fora da região da antiga Galécia a influência do Oceano Atlântico mantém-se nas dietas locais, porém, recebe outras correntes marítimas e, portanto, outros tipos de pescado. Neste sentido, notam-se as diferenças climáticas, de composição do solo, bem como os hábitos, cultura e relação com a alimentação.
Ainda assim, a Asociación Gallega de Estudios da Dieta Atlántica, o Centro de Estudos da Dieta Atlântica (sediado em Viana do Castelo) e o Centro Europeu da Dieta Atlântica[2] insistem em englobar todos os países europeus com costa atlântica como detentores de uma dieta típica, a dieta atlântica.
Sendo assim, segundo as principais entidades de representação e estudo da dieta atlântica[3] são representantes desse tipo de dieta os seguintes países: Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Irlanda, Islândia, Noruega, Dinamarca, Países Baixos e Bélgica.
Em alguns congressos e simpósios essas mesmas entidades têm inclusive admitido a participação de representantes de países fora desse eixo “mais tradicional”, como Brasil, Argentina e Estados Unidos da América, como ocorreu no Congresso e Reunião Internacional sobre a Dieta Atlântica, em 2006, Baiona, Espanha[4].
Características e produtos da Dieta Atlântica
A cozinha atlântica tem como principal característica ser uma dieta baixa em gorduras saturadas, tendo o azeite de azeitona como principal gordura alimentar, utilizado não só na confecção dos alimento,s mas também como tempero após a confecção. Inclui também muitas proteínas de alta qualidade, é rica em fibras e carente em açúcar refinado, evitando os alimentos processados como os fritos, que na linha desta dieta são cozinhados em azeite.
Os ingredientes principais desta dieta são os peixes de mar e rio, molúsculos e crustáceos que constituem as grandes reservas do atlântico, carne suina e bovina, cereais e vegetais/legumes, nomeadamente os produtos hortícolas como a couve, o repoulho, o nabo ,os grelos, não esquecendo os pimentões, a cebola, os alho, a cenoura, a ervilha e a batata.
No que diz respeito às carnes, recomenda-se o consumo das espécies magras, que fazem parte de pratos à base de legumes, feijão ou batata.
São também incluídos produtos lácteos, nomeadamente os queijos e o alto consumo de frutas como a maçã e frutas cítricas são indispensáveis Os produtos lácteos são excelentes fontes de alto valor biológico da proteína, minerais (cálcio e fósforo) e vitaminas. Além disso, o consumo de produtos lácteos fermentados está associado a uma série de benefícios para a saúde através de microorganismos capazes de melhorar o equilíbrio da microflora intestinal.
O vinho deve ser consumido durante a refeição, mas com moderação, No entanto, a bebida essencial desta dieta é a água.
Quando um indivíduo adopta esta dieta para toda a vida há um menor risco de sofrer de diversas doenças como são o caso da hipertensão, problemas cardíacos e obesidade. É também importante prestar especial atenção à preparação dos alimentos, dando primazia à simplicidade sempre tendo em vista o manter a qualidade das matérias-primas e, portanto, o seu valor nutricional.
 Diferenças e Semelhanças entre a Dieta Atlântica e a Dieta Mediterrânica
Como já referimos anteriormente a dieta atlântica é tradicional dos povos que viviam à beira do atlântico e a dieta mediterrânea assenta nos produtos típicos da sua região, sendo evidentemente diferentes devido às razões climáticas, geográficas e geológicas, mas também por toda uma cultura que se mantém à seculos. Ambas as dietas eram típicas de populações mais desfavorecidas, usando-se os produtos cultivados e criados na própria horta, capoeira e através da pesca.
Em dias de festa eram abatidos animais de grande porte e promovia-se o convívio familiar, a gordura e carne eram armazenadas, sendo salgadas ou fumadas para serem usadas ao longo do ano.
Com toda a publicidade em volta desta temática tão actual teme-se que a dieta mediterrânica em si não esteja a ser promovida e explorada em todo o seu potencial, mas apenas os produtos oriundos do mediterraneo.
Este facto vai levar ao declinio da procura de produtos das zonas atlânticas, tendo estes tantas qualidades que não serão aproveitadas apenas por um mero golpe de marketing.
A dieta atlântica é uma das alternativas que se podem adoptar para seguir um regime com alimentação saudável, alcançando resultados semelhantes aos da dieta mediterrânea.
A primeira baseia-se numa alimentação em que se evita o consumo de alimentos processados, açúcares e fritos e ao mesmo tempo a ingestão de vinho. Nas  refeições, o consumo de carnes cozidas é priviligiado, sendo fundamentais os métodos de confecção guizado e assado.
Ela segue o padrão clássico da dieta mediterrânea e inclui uma variedade de produtos saudáveis como frutas e hortaliças, azeite, legumes, carne bovina e suína, cereais e frutos do mar. O peixe é o produto base desta dieta, recomendável entre 3 a 4 vezes por semana.
Esta dieta está associada a taxas mais lentas de declínio mental nos idosos.
Alguns estudos sugerem que a dieta tem efeitos benéficos para o cérebro, mas as provas são ainda consideradas frágeis. Um “novo” relatório analisou os dados de um estudo contínuo de 3.790 moradores de Chicago de 65 anos que começou em 1993.
Taxas elevadas de adesão à dieta foram associadas com taxas mais lentas de declínio cognitivo, mesmo após o controle de tabagismo, escolaridade, obesidade , hipertensão e outros fatores.
Num outro estudo realizado por investigadores da Universidade do Porto e publicado no American Journal of Clinical Nutrition, os habitantes do norte de Portugal e da Galiza apresentam baixo índice de mortalidade causado por doenças cardíacas. Para além disso, estas populações, têm um risco 33% menor de sofrer Enfarte agudo do miocárdio.
A dieta portuguesa é baseada principalmente, em peixe, com maior relevo dado ao bacalhau, carne de porco, laticínios, batatas e vinho tinto durante as refeições. As pessoas consomem também muitas frutas, verduras, azeite, grãos integrais e nozes, e pouca carne vermelha.
A dieta do Atlântico diferencia-se das dietas Mediterrâneas porque inclui mariscos, molusco e peixes como os principais alimentos, mas também carne bovina, carne de porco, legumes, sopas, guisados, assados, mais do que a fritura. Enquanto isso, na dieta mediterrânica existe o domínio pelo azeite, frutas e legumes, carnes, massas, confecionando sobretudo com grelhados e guisados, usando para o refugado os tipicos alhos, cebola, azeite e tomate. Já nos condimentos há maior recurso ao manjericão, aos coentros, ao louro, à salva e aos oregãos.
Assim, a dieta mediterrânica assenta numa cozinha com uso de gorduras animais. Com o baixo consumo de carne que esta implica é por isso menos rica em proteínas do que a Atlântica. O consumo cereais abrange o pão, massas, arroz, cuscuz e pizza.
Os ingredientes são em grande maioria iguais aos da dieta atlântica excluindo as carnes e o uso de peixe do atlântico, uma vez que devido à geografia há predominância de peixe do mediterrânio.
Conclusão
Ao longo da pesquisa bibliográfica deparámo-nos com a dificuldade de encontrar fontes que não a disponível nos modernos meios de comunicação, nomeadamente na Internet, dando-nos logo à partida uma ideia do quão difícil seria o aprofundar das fontes e do quão recente era esta temática, ainda que tendo-nos ficado a sensação de que esta terá sido uma predominância já antiga no inconsciente daqueles que se preocupam com o que é cozinhado e com o que comem. Apenas não estava ainda bem definida a temática que viria então a ser tão debatida e que ronda agora o inevitável fantasma que é a Saúde Pública.
Falamos em fantasma porque no fundo paira todos os lares, quer sobre a forma de tentativa de educar os mais novos, quer sobre a forma de cuidar de nós mesmos, ou de mostrar carinho pelos mais velhos e claro está presente na elaboração de todas as ementas dos profissionais de cozinha, visando o beneficio da alimentação e tentando minimizar os prejuízos até aqui cometidos por excessos e desequilíbrios bem reflectidos na saúde em níveis de obesidade, problemas cardíacos e instabilidade do organismo humano.
Contudo, e citando John Donne, “Nenhum Homem é uma ilha” e os alunos envolvidos na realização deste trabalho não estão imunes aos seus territorialismos e nem às suas preferências gastronómicas, tendo estas contribuído para uma mais motivada ânsia de descoberta das origens da Dieta Atlântica e das suas consequências ou repercussões.
Assim, aquilo que começou por ser uma descrição de duas dietas, cedo se transformou em uma descoberta de raízes da Dieta Atlântica, colocada lado a lado com a Dieta Mediterrânea, sem nenhuma delas fazer sombra à outra, uma vez que encontramos imensas semelhanças em termos os alimentos utilizados, sendo aquilo que as diferencia também aquilo que as potencializa individualmente. Ou seja, os territorialismos que lhes dão as diferenças, como os peixes que predominam as águas que banham as costas dos países que as praticam, os elementos geográficos e climatéricos que tornam únicos cada fruto da terra são aquilo que torna cada uma delas tão atrativa e, sobretudo, tão apetitosa e simultaneamente saudável.
Bibliografia
Centro Europeu de Dieta Atlântica, Plano Estratégico. Disponível na Internet via URL:http://www.ci.esapl.pt/dieta/CEDA.PDF. Arquivo capturado a 6 de Dezembro de 2011.
Description of the diet in the European Atlantic countries. Disponível na Internet via URL: http://www.ci.esapl.pt/dieta/. Arquivo capturado a 6 de Dezembro de 2011
Dieta Atlântica. Disponível na Internet via URL: http://contenidos. universia. es/html_trad/traducirSeccionEspecial/params/especial/fch/apartado/bbbgh/seccion/3/ titulo/DIETA-ATLANTICA.html.Arquivo capturado a 6 de Dezembro de 2011
Dieta Mediterrânea Algarvia. Disponível na Internet via URL:http://admin. Globalgar ve.pt/app/globalgarve/uploads/Publicacoe/dietmed_versao_por_reduzido.pdf. Arquivo capturado a 6 de Dezembro de 2011
Galécia. Disponível na Internet via URL: http://pt.wikipedia.org/wiki/Gal%C 3%A9cia. Arquivo capurado a 6 de Dezembro de 2011
La Alimentación y la Nutrición en el Siglo XXI, IV Reunión Internacional. Dísponivel na Internet via URL:http://www.fen.org.es/imgPublicaciones /7720085444.pdf. Arquivo capturado a 6 de Dezembro de 2011.
SILVA, DUARTE, Dieta do Mediterrâneo. Disponível na Internet via URL: http://yousaude.no.comunidades.net/index.php?pagina=1055724929. Arquivo capturado a 6 de Dezembro de 2011.
VELHO, Manuela Vaz, A Dieta Mediterrânea. Disponível na Internet via URL:http://portal.ipvc.pt/images/ipvc/ipvc/pdf/03_25_09_dieta_atlantica_manuelavazvelho_auroralima.pdf. Arquivo capturado a 6 de Dezembro de 2011
ZUDAIRE, Maire, Dieta atlántica: particularidades nutricionales. Dísponivel na Internet via URL: http://www.consumer.es/web/es/alimentacion/tendencias/ 2008/11 /25/181638.php. Arquivo capturado a 6 de Dezembro de 2011.
[1]Comunidade autónoma de Espanha que inclui as actuais províncias de Lugo, Corunha, Ourense e Pontevedra
[2] Também conhecido pela sigla CEDA
[3] Plano Estratégico do CEDA – Centro Europeu da Dieta Atlântica
[4] IV Reunión Internacional – La Alimentación y La Nutrición en el Siglo XXI 

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